Desde que me lembro de ter começado a ler jornais, sempre li o JN, era e é o jornal da casa.
Havia no entanto um período de excepção: quando o meu avô estava cá em casa. Nesses dias tinha que se comprar o Comércio, dizia ele que não gostava do JN por ser muito grande, gostava mais do formato compacto do Comércio. Nisso, o tempo acabou por lhe dar razão, hoje todos os jornais são assim (com a excepção que confirma a regra: o Expresso).
Depois havia os dias na aldeia e a espera pela assinatura do jornal, que antes de ser lido já tinha viajado umas boas horas, de comboio entre o Porto e a Régua e depois de camioneta pelas ruas do Douro, até chegar já bem depois do meio-dia (isto quando chegava, porque às vezes não era impresso a tempo de chegar ao comboio e só chegaria no dia seguinte).
Mas nunca ganhei grandes afinidades com o jornal, à falta de melhor lia-o, mas não era a primeira escolha de compra. Mas mesmo assim ganhei o hábito de sempre que passava na Avenida dos Aliados dar um salto ao átrio do Comércio e passar uma vista de olhos nas páginas que estavam por lá sempre expostas. Os anos foram passando, o Comércio deixou os Aliados, o meu avô faleceu e fui perdendo algum do contacto que tinha com o jornal. Nos últimos anos, com a descaracterização do JN, com as edições online, com renovação no Comércio operada pelo Rogério Gomes, fui lendo regularmente o Comércio e identificava ali algumas das características que antigamente gostava no JN (e que pessoalmente, acho que entretanto perdeu grande parte delas). E neste momento como jornal da cidade e da região identificava-me muito mais com o Comércio que com o JN, perdia claramente era nas questões nacionais e internacionais.
Obviamente que uma empresa tem de ser viável, seja ela da comunicação social ou não. Obviamente, que uma empresa privada não tem que fazer serviço público.
Mas custa ver isto ciclicamente a acontecer às referências do Porto, porque raio nunca são viáveis? Foi-se a NTV, vai-se o Comércio, ia-se o Coliseu (não fosse a intervenção popular), é o Batalha que está para lá fechado, é o Bolhão que não foi recuperado a tempo e agora se fecha como se nada pudesse ter sido efectuado. E as instituições da cidade e as suas forças vivas a nada fazerem. Já nem sei se é bom o aparecimento da Invicta TV e da Porto Canal, ou se vão ser mais umas ilusões.
Mas felizmente, para compensar, tivemos um circuito de pópós.
Coincidentemente, o chefe de gabinete do presidente da câmara que gosta de pópós, é um ex-director do Comércio (ex-vizinho meu), que enquanto director do jornal saía de casa de bandeira na mão do PSD para os comícios. Como agora o Comércio era um jornal incómodo e o director não andava de bandeirinha, o senhor dos pópós limitou-se a votar um moção. Assim se defende uma cidade.
Amanhã, o velho "Sério" sentir-se-ia vazio, não teria o seu Comércio para ler.