Vale a pena fazer copy-paste de um artigo do JN.
O dinheiro não ganha campeonatos. Sobretudo no F. C. Porto. Pinto da Costa sempre conseguiu melhores resultados desportivos com poucos fundos. A actual temporada não fugiu à regra. A grande disponibili- dade financeira, conseguida com o sucesso na Liga dos Campeões e com a consequente venda de algumas das pedras mais preciosas do plantel, foi a pior conselheira na hora de ir ao mercado. Tanto no Verão como no Inverno. Se, nas quatro linhas, os azuis e brancos ainda alimentam a possibilidade de conquistar a SuperLiga, nas contas, a época é mesmo para esquecer. Os dragões contrataram muito, gastaram ainda mais e quase sempre sem o rendimento mínimo garantido.
Há um ano, o F. C. Porto conseguiu o que para a generalidade dos adeptos do futebol não passava de um sonho. Com uma equipa construída com tostões, conquistou a Liga dos Campeões, deixando pelo caminho orçamentos milionários e equipas recheadas de figuras mediáticas. O rigor da SAD nas contratações e o trabalho desenvolvido sob o comando de José Mourinho permitiram a Pinto da Costa alcançar o pote de ouro guardado no final do arco-íris.
No entanto, bastaram alguns meses para a fortuna ser gasta. E globalmente mal gasta. Em 2004/ /05, a administração desbaratou 39,35 milhões de euros em 16 contratações. Nos dois anos anteriores, em que venceu a Taça UEFA e a "Champions", pagou 24,85 milhões por 19 caras novas. A 31 de Dezembro último, entre plantel principal, equipa B, juniores A e futebolistas emprestados, a SAD portista tinha sob contrato 65 jogadores. Os números nem precisariam de mais comentários. Dizem mesmo tudo.
"Pinto da Costa é, de facto, um bom gestor quando tem pouco dinheiro", avalia Miguel Sousa Tavares. O jornalista, portista, critica duramente a política de contratações adoptada pela SAD na presente temporada. Rui Moreira, economista, presidente da Associação Comercial do Porto e adepto dos dragões, lembra que "as receitas da SAD não andam longe do que estava orçamentado". Para o também elemento do Conselho Consultivo da SAD, "a questão fundamental reside nas despesas. Recorreu-se excessivamente ao mercado brasileiro e com valores de transacção duvidosos".
Pôncio Monteiro, economista e um dos adeptos azuis e brancos mais mediáticos, lembra que "foram contratados jogadores novos de qualidade", mas reconhece, igualmente, que, "como havia mais disponibilidade financeira, talvez não tivesse havido tanto rigor nas aquisições".
De facto, assim foi. Contrariamente ao que havia acontecido nas duas épocas anteriores, em que a quase totalidade dos reforços foi conseguida em operações cirúrgicas, a presente foi um péssimo exemplo de desperdícios. Uns atrás dos outros. A temporada portista, com um orçamento muito superior ao do Benfica e duas vezes maior do que o do Sporting , começou torta e jamais se endireitou. A contratação de Del Neri foi complementada por inexplicáveis entradas e saídas de jogadores, em que a venda de Pedro Mendes (ou a compra de Postiga por 7,5 milhões de euros) está no topo da lista de exclamações que preenchem a época do campeão europeu.
Quando a componente desportiva ameaçava entrar no vermelho, a fuga para a frente, com a troca de treinador e a consequente aquisição de mais e mais jogadores, foi o caminho a seguir.
Ou seja, a temporada foi construída tendo por base critérios no mínimo discutíveis. Dos alicerces ao telhado. As vitórias na Supertaça portuguesa e na Taça Intercontinental apenas salpicaram a dourado um ano demasiado negro e em que nem o ainda matematicamente possível espumante pela conquista do tricampeonato ajudará a esquecer.
Ninguém consegue perceber por que Rossato não chegou a ter cacifo no Olival e Hugo Almeida, Maciel, César Peixoto, Bruno Alves e Marco Ferreira foram emprestados; para que foram contratados, entre outros, Areias, Pepe, Hugo Leal, Paulo Assunção, Leandro, Léo Lima e Pitbull, e, sobretudo, por que Carlos Alberto foi vendido aos 20 anos, quando ainda tinha uma margem de progressão tão significativa.
No entanto, mais do que a aparente falta de critério nas vendas e nas compras, o principal problema está nos salários acordados com os futebolistas. O alerta é dado por Hélder Varandas, presidente da "JB Solutions, SA". "Os orçamentos têm de ser planeados em função das receitas", lembra o antigo consultor da "Deloitte & Touche", empresa responsável pelo "Anuário das Finanças do Futebol Profissional". Miguel Sousa Tavares concorda "Vieram jogadores em transferências caras, com contratos de longa duração e com salários proibitivos", sublinha, lamentando que "Pinto da Costa esteja prisioneiro dos abutres do futebol, que são os empresários". E deixa uma questão: "Como é possível que a actual equipa custe mais 20% do que a que foi campeã europeia?".
Essa é uma das muitas perguntas a que nem um especialista consegue responder. "O F. C. Porto teve sempre cuidados nas compras, mas este ano fez tudo o que não se deve fazer. As vitórias fizeram-lhe mal empolaram-lhe as despesas. O F. C. Porto não pode pagar 30 mil contos (150 mil euros) por mês a quatro ou cinco jogadores. E mais me surpreende, atendendo a que o líder é o mesmo", sublinha Hélder Varandas. Para o consultor financeiro, no final do exercício 2003/04, quando a SAD revelou um lucro de 24,8 milhões de euros, só havia um caminho a seguir: "Deveria ter amortizado o passivo e continuado a adequar as despesas com os salários às receitas ordinárias". "Perdeu-se uma soberana oportunidade de pôr o passivo a zero e de ficar com o estádio pago", junta Miguel Sousa Tavares.
E quem julga que a conquista do tricampeonato será a tábua de salvação está profundamente enganado. "É claro que ser campeão tem um importante efeito na massa associativa, mas, em termos financeiros, o importante é assegurar a presença na Liga dos Campeões", analisa Hélder Varandas, alertando, ainda, para o facto de as principais consequências da gestão 2004/05 "só se fazerem sentir na próxima época, altura em que os ecos da vitória na Champions deixarão de existir".
No espaço de um ano, o F. C. Porto conseguiu ser exemplo por razões opostas. Depois da vitória europeia, o descalabro financeiro. A temporada ainda não acabou, mas o título de campeão do desperdício foi há muito conquistado pelos dragões.
A época 2004/05 foi a temporada das oportunidades perdidas para o F. C. Porto. Dentro e fora do campo.
In JN por Jorge Pedroso Faria