Esta história dos SuperDragões com os jogadores durante a viagem da Madeira fez-me lembrar uma história que o Maradona relata no seu livro 'Eu sou El Diego", para quem não a leu aqui fica a parte mais significativa:
E as coisas continuavam na mesma. Mais um triunfo sobre o Newell's e, então... quatro empates de seguida. Inclusive com o River no Monumental, com outro golo meu, outra vez a deixar o "Pato" Fillol e o Conejo Tarantini de gatas, mas... quatro empates! Para o Boca, para aquele Boca, era de mais. Foi então que a Barra (A Barra Brava. Grupos organizados de adeptos muito violentos, do tipo dos Holligans) tomou "La Candela" de assalto, ali mesmo em San Justo.
Eu estava à espera na fila para usar o telefone. Queria ligar à Claudia. O "Mono" Perotti não desligava. O telefone estava numa pequena sala, mesmo à entrada...
"Embora, 'Mono', a puta que te pariu, há duas horas que estás a falar!" disse-lhe. E o "Mono" sentado, com as pernas para cima, respondia-me: "Calma, Maradona, calma!"
Vejo então um tipo que lhe atira as pernas para o chão com violência.
"Alto lá! Vais magoá-lo!", gritei e quando olho para ver quem era o gajo, vejo um tipo enorme, que me diz: "Tá calado, pá!"
Eu não me acobardei:
"O que é que estás a dizer, pá? Eu estou na minha casa ..."
O tipo mudou de tom:
"Não, não, Dieguito, fica tranquilo... isto não é contigo."
Quando olho em volta, vejo cerca de duas mil pessoas na salinha de pingue-pongue. Era a Barra Brava: entravam em todos os quartos, o José Barrita - El Abuelo" (Líder conhecido dos Barra Bravas) ... estavam todos! Vi revólveres, revólveres de verdade. Olhei pela janela e vi que no parque de estacionamento havia uns dez carros; eram todos deles. Queriam bater no Tano Pernía, no russo Riboldi, no Pancho Sá... Eu não queria acreditar. E diziam:
"Rapazes, não levem a mal, mas os adeptos estão furiosos e nós viemos avisar-vos. Se não ganharem o campeonato, a fúria não terá controlo. Viemos avisar-vos, mais nada ..."
"Não, rapazes, esperem...", disse eu, e "El Abuelo" respondeu-me:
"Não, tu não te metas nisto, que a coisa não é contigo..."
Mas não podia continuar assim, eu não suportava a situação.
"Não será comigo, mas isto não ajuda ninguém. Vir aqui e pressionar-nos desta maneira, para quê? Amanhã, não joga ninguém. Pelo menos, eu não jogo."
E "El Abuelo" insistia:
"Olha, Diego, os jornais dizem que alguns destes gajos não te passam a bola, que não querem correr, assim diz-nos quem são os que estão a lixar e nós tratamos disso. Se não correm, limpamos o sebo a todos."
Uma loucura! Está bem, eu era a estrela, tudo o quiserem imaginar, as pessoas adoravam-me... mas estavam todos doidos! E o Sílvio que nunca mais chegava!:.. Estava escondido. Quando chegou, enfreitei-o e disse-lhe:
"Assim, esta equipa não pode jogar."
"El Abuelo" falou outra vez:
"Está bem, está bem, joguem... mas é melhor para vocês que corram porque, de contrário, vamos rebentá-los a todos."
"Como é que nos vão matar se não corrermos, pá? Ouve lá..."
"Puto, contigo não... tu vais ser o capitão, tu és o nosso representante, tu quiseste vir para o Boca."
Eu só tinha 20 anos e enfrentei os caceteiros do Boca. Fiz frente ao "Abuelo". Naquel dia, ganhei respeito de todos, dos mais velhos, de todos. Porque não me conheciam a mim. Só conheciam o Maradona que jogava à bola, mas ali perceberam que também podia defendê-los fora do campo.
No dia seguinte, 19 de Julho, fui capitão da equipa e ganhámos ao Estudiantes por 1 a 0, com outro golo do Perroti. Foi uma coisa de doidos... Aquele grupo de comandos que atacou "La Candela" conseguiu armar-nos como equipa, porque a partir daquele momento fomos outra coisa. Vínhamos de empatar quatro jogos seguidos, o Ferro aproximava-se e seria o fim da macacada. Mas safámo-nos.
Nunca esquecerei o que aconteceu naquele dia, juro por Deus, e assim o pode testemunhar qualquer jogador daquele Boca de 1981. O "Pantera" Rodríguez estava pálido, o pequeno Quiroz começou a chorar e disse-me: "Julguei que nos iam matar a todos, Diego, obrigado." Qual obrigado nem meio obrigado. Eu estava tão acagaçado que nem queria acreditar... Mas alguma coisa tinha de dizer. Eles queriam controlar-me com aquela "tu vais ser capitão, tu és o nosso representante, tu quiseste vir para o Boca". O "Abuelo" percebeu que tinha feito merda. Se a polícia tivesse chegado naquele momento, era o tiroteiro.